A guerra híbrida contra o Brasil: o cerco geopolítico e as eleições de 2026

16/03/2026

A guerra híbrida contra o Brasil: o cerco geopolítico e as eleições de 2026


*Larissa Ramina é Professora de Direito Internacional da UFPR, Membro da ABJD – Associação Brasileira de Juristas pela Democracia.


Quando começaram a emergir novas revelações sobre a relação entre Donald Trump e Jeffrey Epstein, o governo estadunidense deslocou o centro da agenda internacional para a escalada militar contra o Irã. A coincidência temporal entre escândalo doméstico e ofensiva externa não pode ser lida apenas como acaso. Na história das grandes potências, crises internacionais frequentemente cumprem também a função de reorganizar o debate público interno, reposicionar lideranças em dificuldade e reconstruir legitimidade pela via da guerra. Quando esse movimento é observado em conjunto com a política dos EUA para a América Latina, o quadro ganha contornos ainda mais inquietantes.

A agressão ao Irã não diz respeito apenas ao Oriente Médio. Ela repercute diretamente sobre a economia global, pressiona preços de energia, afeta cadeias logísticas, encarece insumos e pode produzir impactos sensíveis sobre países periféricos ou semiperiféricos, entre eles o Brasil. Num contexto em que a estabilidade econômica é variável central de qualquer disputa eleitoral, uma guerra envolvendo EUA, Israel e Irã pode ter efeitos concretos sobre inflação, combustíveis, câmbio, custo de alimentos e percepção social de bem-estar. Em outras palavras: um conflito internacional dessa magnitude também pode interferir nas condições políticas da reeleição de Lula.

Entretanto, a dimensão decisiva dessa guerra é geopolítica. O ataque ao Irã não deve ser visto como um episódio isolado, nem como mera continuação do seu antagonismo histórico com os EUA. O Irã ocupa posição estratégica para a China, pela energia e pelas rotas logísticas vinculadas à integração eurasiática; é relevante para a Rússia, inclusive por sua cooperação no setor nuclear e por sua posição nas rotas que articulam o corredor Norte-Sul; e, sendo membro do BRICS, tornou-se parte de um arranjo mais amplo de contestação da ordem unipolar. Nessa perspectiva, a agressão ao Irã pode ser lida como um ataque indireto à Rússia, à China e ao conjunto dos BRICS. O alvo imediato é um Estado; o alvo estratégico é a multipolaridade em construção.

Se essa leitura estiver correta, o Brasil aparece como peça de valor especial. O país é membro fundador dos BRICS, possui peso territorial, energético, mineral, alimentar e diplomático, e segue sendo uma das poucas nações capazes de articular margem autônoma entre diferentes polos de poder. Exatamente por isso, tornou-se alvo prioritário de uma nova arquitetura de pressão. Essa arquitetura foi explicitada sem pudor na National Security Strategy de 2025, quando os EUA reafirmaram o hemisfério ocidental como espaço de contenção de rivais, proteção de ativos estratégicos, defesa de cadeias críticas de suprimento e combate a “narcoterroristas”, concluindo com a disposição de afirmar e impor um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. A mensagem é brutalmente clara: a América Latina volta a ser tratada como zona de tutela estratégica dos EUA, sendo que qualquer mudança na arquitetura de poder hemisférica afeta diretamente a soberania brasileira. E é aqui que os acontecimentos recentes deixam de parecer desconexos.

A possível classificação das facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras pelo Departamento de Estado dos EUA é um desses pontos de inflexão. A medida, se formalizada, não é apenas jurídica. Ela altera o enquadramento político do crime organizado no Brasil, e o desloca do campo da segurança pública para o da segurança hemisférica. Trata-se de uma reclassificação semântica com efeitos estratégicos: terrorismo não é apenas crime grave; é categoria que legitima novas formas de sanção, monitoramento, extraterritorialidade e cooperação militar. Ao converter facções em objeto da gramática global da “guerra ao terror”, os EUA passam a reivindicar para si um papel mais amplo na definição do que seja ameaça no espaço latino-americano.

Esse movimento não surge no vazio. Ele vem acompanhado de uma escalada militar e securitária em todo o entorno regional. A operação militar conjunta entre EUA e Equador, anunciada como ação contra grupos enquadrados como “narcoterroristas”, explicita a passagem do discurso à prática. O combate ao narcotráfico, antes tratado formalmente como matéria de polícia, inteligência e cooperação judicial, passa a justificar presença e ação militar direta. A própria adoção do termo “narcoterrorismo” cumpre papel decisivo: funde crime organizado e terrorismo numa única categoria política, ampliando a margem para intervenção externa.

No Paraguai, a aprovação no Senado de acordo que autoriza a presença de militares, civis do Departamento de Defesa e contratados estadunidenses em território nacional, com amplos privilégios, imunidades, liberdade de circulação e autonomia operacional, reforça o mesmo padrão. Não se trata apenas de cooperação militar convencional. O pacto indica aprofundamento de uma arquitetura regional de segurança alinhada aos EUA, inclusive em torno da Tríplice Fronteira, espaço historicamente sensível para Brasil, Paraguai e Argentina. Some-se a isso o anúncio paraguaio de um centro antiterrorismo com agentes treinados pelo FBI, as declarações sobre Hezbollah na região e o alinhamento diplomático com EUA e Israel. O resultado é uma moldura regional em que terrorismo, narcotráfico, fronteira e influência estrangeira passam a ser administrados sob crescente tutela estadunidense.

Nessa moldura, o Brasil se torna alvo provável de pressão. Não necessariamente por meio de intervenção clássica, mas por instrumentos de guerra híbrida: reclassificações jurídicas, alinhamentos regionais, operações de linguagem, produção de instabilidade informacional, pressão sobre instituições e utilização eleitoral do caos. 

É nesse ponto que a visita recentemente autorizada de Darren Beattie a Jair Bolsonaro na prisão ganha sentido político mais amplo. Beattie não é um burocrata neutro. Trata-se de uma figura associada à direita radical estadunidense, com histórico de ataques ao STF e defesa pública de Bolsonaro. Sua visita a um ex-presidente preso, em pleno contexto de tensão entre bolsonarismo, Judiciário e governo, não pode ser lida como gesto protocolar irrelevante. Ela reforça a percepção de que setores do trumpismo acompanham de perto a disputa institucional brasileira e buscam inserir-se nela de forma ativa. Quando um operador político ligado à administração dos EUA se desloca para encontrar Bolsonaro e já construiu retoricamente uma narrativa de perseguição judicial no Brasil, o gesto se torna parte de uma disputa transnacional por enquadramento político.

Ao mesmo tempo, persistem suspeitas de que remanescentes da Lava Jato ainda ocupem cargos estratégicos na Polícia Federal e na Procuradoria-Geral da República. Se núcleos lavajatistas sobreviveram institucionalmente e seguem em posições de comando ou influência, então há possibilidade real de convergência entre agendas domésticas de desestabilização e pressões geopolíticas externas. A leitura presente em setores do STF, segundo a qual ataques a ministros serviriam indiretamente para desgastar o governo, precisa ser considerada com seriedade. Num ambiente de guerra híbrida, a corrosão do Supremo e a corrosão do Executivo podem ser duas faces do mesmo processo.

É impossível discutir esse quadro sem mencionar Sergio Moro. Suas relações com os EUA são antigas e densas, e já foram amplamente debatidas em diferentes momentos. Sua participação em eventos promovidos pelo DOJ (Departamento de Justiça dos EUA), a homologação de acordos que afetavam diretamente a Petrobras, os contatos com órgãos como o FBI, a viagem a Washington logo no início do governo Bolsonaro e, depois, sua passagem pela Alvarez & Marsal alimentaram a interpretação de que a Lava Jato não foi apenas uma cruzada anticorrupção, mas também vetor de reconfiguração do poder nacional em sintonia com interesses externos. Some-se a isso o fato de Moro ter sido declarado juiz suspeito pelo STF e o papel central que exerceu na interdição política de Lula em 2018. A pergunta sobre a natureza de seus vínculos e sua função histórica permanece aberta porque ela é central para compreender como lawfare, desmonte econômico e alinhamento geopolítico puderam caminhar juntos.

O chamado caso Master também precisa ser lido nessa chave ampliada. O debate público tentou concentrar foco quase exclusivo em ministros do STF, em seus familiares e em aspectos laterais do escândalo, enquanto personagens politicamente muito mais comprometedores apareciam apenas à margem. O escândalo toca nomes centrais da direita e de seu entorno de poder: Bolsonaro, por doações e proximidades políticas; Ciro Nogueira, por iniciativas legislativas vistas como favoráveis ao grupo; Nikolas Ferreira, pela relação com estruturas de campanha e deslocamento ligadas ao banco; Tarcísio de Freitas, pela proximidade político-eleitoral com redes beneficiadas; e Ibaneis Rocha, pelo vínculo com recursos públicos e fundos sob sua esfera de influência política. Isso produz um efeito clássico de guerra informacional: desvia-se a atenção dos centros materiais de poder e redistribuição de vantagens para concentrá-la em alvos mais úteis à batalha política. Se a consequência é desgastar o Supremo, reforçar narrativas de podridão institucional e ampliar o sentimento de caos, o caso deixa de ser apenas financeiro e torna-se também comunicacional e estratégico.

O padrão que emerge da leitura conjunta desses fatos é nítido. Primeiro, instala-se no plano internacional uma doutrina mais agressiva dos EUA para o hemisfério, fundada na militarização do combate ao crime e na contenção de potências rivais. Depois, dissemina-se a categoria do “narcoterrorismo”, que permite reclassificar conflitos internos dos países latino-americanos como ameaças de segurança continental. Em seguida, consolidam-se acordos e operações militares concretas em países vizinhos, como Equador e Paraguai. Paralelamente, articulam-se canais de influência política sobre a extrema direita brasileira, simbolizados pela atuação e visita de Darren Beattie. Internamente, reativam-se ou preservam-se circuitos institucionais, mediáticos e judiciais capazes de produzir desgaste sobre o STF e o governo. E, no pano de fundo, a guerra contra o Irã pressiona os BRICS, tensiona a economia global e produz impactos potencialmente desorganizadores sobre países que buscam autonomia.

Nada disso, isoladamente, prova um plano linear, perfeito e centralizado. Processos históricos reais raramente operam assim. O que existe é algo mais plausível e mais perigoso: uma convergência de movimentos. Doutrina geopolítica, operações militares regionais, reclassificação jurídica, guerra informacional, pressão econômica, sobrevivência de redes institucionais hostis e ativação internacional da extrema direita podem compor, juntos, um ambiente propício à interferência sobre a democracia brasileira.

É justamente aí que entra 2026. As eleições presidenciais não ocorrerão num vazio. Elas se darão sob tensão internacional crescente, possível deterioração econômica global, disputa ferrenha por narrativa, ofensiva securitária continental e conflitos institucionais internos. A guerra híbrida não depende de tanques na rua. Ela opera por saturação do espaço público, destruição de confiança, desorganização da percepção social e manipulação de crises reais. Se a vida piora por efeito de guerra externa, se o governo é responsabilizado, se o Supremo é transformado em inimigo interno, se a segurança pública é recodificada como problema de terrorismo e se atores estrangeiros participam da legitimação de uma oposição radicalizada, então as condições de disputa eleitoral já estão sendo moldadas muito antes da campanha formal começar.

A conclusão, portanto, é dura, mas necessária. A leitura conjunta da guerra contra o Irã no momento dos escândalos Epstein; da tentativa de classificar CV e PCC como organizações terroristas estrangeiras; da operação militar EUA-Equador; do aprofundamento da cooperação militar no Paraguai; da visita de Darren Beattie a Bolsonaro na prisão; das suspeitas sobre a permanência de remanescentes da Lava Jato em postos estratégicos da PF e da PGR; das relações históricas de Moro com os Estados Unidos; do uso político-comunicacional do caso Master; e da compreensão da agressão ao Irã como ataque ao conjunto dos BRICS revela mais do que coincidências. Revela a construção de uma estratégia de guerra híbrida.

Seu objetivo não é ocupar formalmente o Brasil, mas interferir em suas escolhas, condicionar sua soberania, enfraquecer seu governo, disciplinar seu sistema político e moldar o ambiente das eleições de 2026. O centro do problema não está apenas em Lula, embora a reeleição de Lula seja o alvo imediato. O centro do problema é o Brasil como país que ainda pode escolher autonomia, multipolaridade e soberania. É isso que está em disputa. E é por isso que os sinais de agora precisam ser lidos com a gravidade histórica que merecem.

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